Nossa compulsão atual de compartilhar com o mundo a nossa vida tem promovido uma verdadeira angústia da foto. Temos que fotografar, registrar, compartilhar cada momento, cada instante, cada experiência. E fazemos, na maioria das vezes, é preciso que se diga, com um enorme prazer.
A foto do filho crescendo, fofinho; o encontro com os amigos, a família reunida, o jogo de futebol, a pescaria do final de semana, tudo é motivo pra fotografia.
E a foto digital, ixi, transformou o registro visual em uma leve brincadeira, a mil cliques por minuto.
O que dizer, então, do primeiro barco adquirido na vida de um velejador que sonha com o mar desde criança? O primeiro encontro, bater os olhos nas formas hidrodinâmicas do casco, na brancura concreta e faiscante dele, na malemolência da vela cheia, estufada, barriguda, flap flap ao vento.
Montar pela primeira vez o barco de sua vida, que você sabe que vai montar e desmontar centenas, milhares de vezes, admirando a cada uma delas o menor dos parafusos, o cabinho mais vagabundo, e desmontar ao final da velejada, com o cansaço mais agradável que se pode sentir nesse mundo.
Eu fiz isso no último final de semana, na Barra do Cunhaú. Conheci o “meu” barco. Meu primeiro barco. Um barco com alma, que Bira Carratu não me vendeu, apenas me concedeu o direito de tê-lo (obrigado, Bira!); o direito de compartilhar da amizade deste barco, esguio, ligeiro, sereno.
Um hobie cat 14; um pequeno catamarã que desliza como um tapete voador sobre as águas, como se flutuasse atrás das mil e uma histórias de Sherazade, como se ela fosse esposa de Simbad e vivessem na ilha do tesouro encantada. Um tapete mágico atrás de aventuras de outro mundo, um mundo que só parece existir para quem ama o oceano, os povos que se espalham por suas margens e que cultivam suas histórias, seus heróis, seus monstros, suas ilhas, seus piratas, suas cores.
O meu hobie cat me levou a primeira velejada com a suavidade de quem recebe um aprendiz, um marinheiro desajeitado, com a ternura de mostrar as armadilhas, mas com a firmeza de mostrar o rendilhado que traçam seus lemes sobre as águas, em uma manhã de sol.
Tenho que confessar: meu hobie cat é lindo. Me desculpem os donos de hobie cat, mas acho que igual a ele não tem. Quem quiser provar o contrário, vamos nos encontrando nos bom fins de semana pra disputar essa peleja.
Eu conheci meu barco, meu primeiro barco, velejei, sem perceber, por mais de duas horas, comecei uma amizade com ele, trocamos ideias e, acreditem, eu não tirei uma foto desse momento. Nem Bira, nem minha esposa em terra, ninguém lembrou de um simples registro fotográfico, com o celular mais fulera que estivesse a mão.
E isso, amigos, não fez – e não está fazendo – a menor diferença.
Porque tudo está registrado aqui, bem aqui, nas minhas retinas fatigadas e em meus neurônios já gastos; tudo que um velejador espera do primeiro dia com seu primeiro barco.
Está tudo aqui.
Vocês conseguem ver também?
Lucílio Barbosa



VI MELHOR DO QUE QUALQUER FOTO! BONS VENTOS!
Valeu André!